domingo, 31 de outubro de 2010

Raina

Sorry, não consegui escrever até hoje. As crianças, as rotinas, os jantares. Tenho uma história. Andei a pensar como seria a minha contribuição no blog e finalmente tive uma ideia que me parece encaixar no que é pedido e naquilo que eu sou. Sabem que gosto de histórias. É assim que me vou conhecendo e que conheço o mundo. Sim, eu sei que são histórias assustadoras mas vá, os meus lados sombrio, decadente e de humor negro saem em jorro assim, em jeito de histórias de terror infantis. 1, 2, 3.
Conheci uma mulher arrepiante. De olhar dormente, torta no andar descaído à direita. A coluna era um S pronunciado. Apesar do olhar ausente e do tronco com forma de bicho, o que esta mulher tinha de embriagante eram as suas mãos. Ahhh coitada parece um aranhiço, disse a senhora bem composta e emprumada que esperava no corredor ao meu lado. Trouxe a mala para junto do peito como que a proteger as posses de um possível roubo. As mãos da Dona Aranhiço eram hipnotizantes. Não conseguia tirar os olhos daqueles dedos afiados, estáticos, empedrecidos pela doença e que apontavam para alguma coisa perdida, qualquer coisa que não volta nunca mais mas que a mulher procurava avidamente.
Os olhos azulados da velhice, transparentes pela ausência de afecto. Mais valia ter morrido, disse a senhora ao meu lado enquanto abraçava a mala com força. Aquelas mãos procuravam alguém. Um filho? Um marido? Será que algum homem soube amar aquelas mãos?
A Dona Aranhiço não falou. Eu esperava um grunhido, um riso amedrontador. Passe para cá todo o seu dinheiro ou Sabe onde fica o consultório do Dr. Coisinho? ou As mulheres que olham para os meus olhos nunca mais podem ter filhos. Mas nada. Ela era muito mais significativa para nós do que nós éramos para ela. A direiteza do corredor evidenciava a coluna torcida que a empurrava de um lado para o outro e, quase em queda, pé arrasta pé, a mulher fez o seu caminho.
Havia um periquito no fundo do corredor. Achei que a Dona Aranhiço iria ao seu encontro. Será que é ela que trata do pássaro engaiolado? Dois aprisionados entender-se-ao certamente. E com que mãos? Com as dela? Como? Se tenta enfiar a mão na gaiola deve ficar algum dedo de fora e como é que ela pega no pássaro? Será que o vai matar? Chamo o segurança? Socorro esta pobre velha quer matar o periquito. Talvez até fizesse um favor ao bicho.
Mas ela não vê o pássaro. A Dona Aranhiço já nem a ela se vê. Nem sabe que é gente. Procura alguém ou alguma coisa que perdeu há muito tempo. É uma ausência que lhe afunda o peito, fez-lhe uma cova funda à frente e entortou-lhe a coluna atrás. A sanidade? Procura-se a si própria. Será? Dona Aranhiço!? Dona Aranhiço, a senhora está aqui! Mas ela não se vê, naquele corpo tosco e endurecido ela já não se encontra.

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