domingo, 31 de outubro de 2010

Sarah

Hoje tive um sonho estranho. Sonhei que tinha uma namorada. Eu? Uma namorada. Já acordada deitei-me de barriga para cima na cama e fiquei cerca de uma hora a trazer o sonho de volta. E ele veio. Como um filme em câmara lenta. A minha namorada era bonita, de pele muito branca, peito pequeno e coxas médias. Era simpática e risonha. Tinha um olhar amoroso, apaixonado, ternurento. Dentro do sonho eu estava muito mais confusa do que ela, precisava muito mais dela do que ela de mim naquele momento.
O que me impressionou mais no sonho foram as formas, as formas dos nossos corpos e como elas me eram reconhecíveis. Eu conhecia o corpo dela como se ele fosse meu mas ele não era o meu corpo. O corpo dela era uma parte de mim mas ao mesmo tempo não era eu. Era um corpo amigo, feminino, apaziguador, terno. Era um corpo materno mas não era um corpo de mãe. Não era nada do qual eu tivesse nascido. Era uma parte que eu preciso mas que não é minha. Era um ombro amigo mas num corpo inteiro. Era um bom ouvinte mas num corpo inteiro. Era a minha ouvinte mas também era a minha amada. Era minha conselheira mas também era a quem eu aconselhava. 
Tinha cabelos longos e volumosos. Eram quentes e eu escondia-me por baixo deles. Vestiam-me, os cabelos dela. A pele era apessegada, de pelos finos e suaves. Pensei que não queria ver-me a fazer amor com uma mulher. Aliás, não sei fazer amor com uma mulher. Não fizemos amor como eu conheço o que é fazer amor mas depois deste sonho questionei-me quanto à minha forma de fazer amor e se já alguma vez fiz amor. Acho que com ela fiz amor mas não foi como eu tenho feito amor (fora dos sonhos). Senti que recebi amor e que dei. Senti que não havia tempo e que podia ficar ali ou voltar ali sempre que precisasse. Tive medo de precisar dela mais vezes. Senti que não sabia nada da vida. Que a forma como tenho visto os corpos dos outros tem sido académica, trabalhada, profissionalizada de mais. 
Weird!! Depois de lembrar o sonho achei estranho nunca ter sonhado com mulheres antes desta noite. Porque é que o corpo de uma mulher que é amada é mais roliço e inteiro? Estará ele mais cheio com coisas úteis? Como é que eu encho o meu assim?

Raina

Sorry, não consegui escrever até hoje. As crianças, as rotinas, os jantares. Tenho uma história. Andei a pensar como seria a minha contribuição no blog e finalmente tive uma ideia que me parece encaixar no que é pedido e naquilo que eu sou. Sabem que gosto de histórias. É assim que me vou conhecendo e que conheço o mundo. Sim, eu sei que são histórias assustadoras mas vá, os meus lados sombrio, decadente e de humor negro saem em jorro assim, em jeito de histórias de terror infantis. 1, 2, 3.
Conheci uma mulher arrepiante. De olhar dormente, torta no andar descaído à direita. A coluna era um S pronunciado. Apesar do olhar ausente e do tronco com forma de bicho, o que esta mulher tinha de embriagante eram as suas mãos. Ahhh coitada parece um aranhiço, disse a senhora bem composta e emprumada que esperava no corredor ao meu lado. Trouxe a mala para junto do peito como que a proteger as posses de um possível roubo. As mãos da Dona Aranhiço eram hipnotizantes. Não conseguia tirar os olhos daqueles dedos afiados, estáticos, empedrecidos pela doença e que apontavam para alguma coisa perdida, qualquer coisa que não volta nunca mais mas que a mulher procurava avidamente.
Os olhos azulados da velhice, transparentes pela ausência de afecto. Mais valia ter morrido, disse a senhora ao meu lado enquanto abraçava a mala com força. Aquelas mãos procuravam alguém. Um filho? Um marido? Será que algum homem soube amar aquelas mãos?
A Dona Aranhiço não falou. Eu esperava um grunhido, um riso amedrontador. Passe para cá todo o seu dinheiro ou Sabe onde fica o consultório do Dr. Coisinho? ou As mulheres que olham para os meus olhos nunca mais podem ter filhos. Mas nada. Ela era muito mais significativa para nós do que nós éramos para ela. A direiteza do corredor evidenciava a coluna torcida que a empurrava de um lado para o outro e, quase em queda, pé arrasta pé, a mulher fez o seu caminho.
Havia um periquito no fundo do corredor. Achei que a Dona Aranhiço iria ao seu encontro. Será que é ela que trata do pássaro engaiolado? Dois aprisionados entender-se-ao certamente. E com que mãos? Com as dela? Como? Se tenta enfiar a mão na gaiola deve ficar algum dedo de fora e como é que ela pega no pássaro? Será que o vai matar? Chamo o segurança? Socorro esta pobre velha quer matar o periquito. Talvez até fizesse um favor ao bicho.
Mas ela não vê o pássaro. A Dona Aranhiço já nem a ela se vê. Nem sabe que é gente. Procura alguém ou alguma coisa que perdeu há muito tempo. É uma ausência que lhe afunda o peito, fez-lhe uma cova funda à frente e entortou-lhe a coluna atrás. A sanidade? Procura-se a si própria. Será? Dona Aranhiço!? Dona Aranhiço, a senhora está aqui! Mas ela não se vê, naquele corpo tosco e endurecido ela já não se encontra.

Eva

Ontem o meu namorado disse-me que eu era parecida contigo Olivia. Na altura qualquer coisa mexeu dentro de mim mas não dei grande importância. Hoje acordei enraivecida, ressentida, a cerrar a boca e a maldizer os homens. Não sabia porquê. Questionei-me. Achei estranho não me apetecer falar com o meu namorado. Liguei os assuntos, tentei perceber se havia correlação. Não perdi muito tempo a perceber se fazia sentido sentir o que sentia. Acho que a culpa ataca-te mais a ti. Estou certa?
Conhecemo-nos desde a escola secundária. Sempre te achei bonita, energética, dinâmica, um bocadinho namoradeira de mais. Também não percebia muito bem porque é que nunca te apaixonavas. Eu apaixonava-me bastante mas era muito mais tímida do que tu. Eu amava e tu deixavas que te amassem. Já nos zangámos muitas vezes. Eu ofendia-te, dizias-me. Está certo. Eu ofendo pela participação e tu pela ausência dela.
Não era de ti que estava com raiva hoje de manhã. Isso já percebi. O que me inquietou foi o meu namorado dizer-me que me pareço com alguém que não sou. Mas não serei? Mas também sou eu, certo? Ou seja, ele viu em mim  partes de ti. Fiquei ofendida. Mas ele tem razão. Tem razão num aspecto: com homens que eu amo sou pouco frontal, falo pela metade, ofendo-me a dobrar, sou mais sensível, tenho muitos telhados de vidro. Achei estranho ele ver com tanta clareza um lado que eu acho ser muito menos meu. Depois pensei - mas porque é que ele não vê a Eva? Ele não vê a Eva como o meu pai não vê a Eva. Como é que o meu pai não vê a Eva? Sempre achei que o meu pai não queria ver a Eva...mas será que a Eva não queria ser vista pelo pai? E porque é que não queria? Será que nunca quis? Será que não podia?
Talvez a Eva tenha um papel menor quando quer ser amada, apreciada, querida, e, talvez até diga menos, fale menos, ofenda menos. Para ser mais amada... Infelizmente não tem funcionado nesta proporção. Errei na fórmula Olivia. E agora? Como é que posso ser vista sem me perder?

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Sarah

JAJAJDBA<JF<VKBH WARH FH BZBM Sei lá o que escrever sobre vínculo. Acho-me vinculada. Desvinculo-me quando quero. Sou vinculada a chocolate, café com natas, cremes para o corpo, e... não me ocorre mais nada mas estou certa que tenho outros vínculos. Podia dizer muitas merdiçes: vinculo-me a livros, vinho, filmes, bdjbafk mas é mentira. Gosto disso tudo mas se tivesse que passar sem passaria bem e acho que não morria por isso. Ás vezes preciso de me lembrar que sou um corpo. Sim, desvinculo-me facilmente do meu corpo. Não me acontece nada horroroso, não levito nem deprimo mas noto que posso passar uma semana sem falar com o meu corpo e só reparo nele quando ele se cansa. Faz sentido? Sim, já sei que sou a mais filosófica das cinco e que, por isso, contribuo no sentido em que levanto questões parvas, por vezes até aborrecidas e que não lembrariam ao diabo.
Pois, o corpo. Gosto de corpos, gosto de formas, gosto de texturas, peles, cheiros (menos), tamanhos. Gosto de me sentar em bancos de jardim ou em esplanadas e examinar corpos que passam. Formas de corpos que passam. Como se fossem só formas sem gentes por dentro. Sem conteúdo. Com conteúdo mas onde o conteúdo é só parte da forma e não se sobrepõe a ela. Faço-me entender? Será que o conteúdo faz a forma. Ah boa. Talvez sim. Pois é essa a minha maior pesquisa neste momento. Como é que o conteúdo influencia o corpo com forma. Acho que muito mas posso estar enganada. E se eu mudar a forma do corpo o conteúdo ou a perspectiva sobre ele também são alterados. E a perspectiva do próprio corpo e dos outros corpos que se cruzam com esse.
O movimento da forma também me interessa. Como é que o conteúdo escolhe mover a forma. Faz sentido? Como é que a forma leva o conteúdo. Quem leva quem afinal? Quem é que me carrega? Eu vou ou sou levada. Talvez dependa de corpo para corpo. Eu acho que às vezes vou e outras sou levada. Outras vezes não vou. E porque é que não vou? Escolho não ir ou não me levam?nahahudigavkj
Et voilá. E assim passo os meus dias e noites a pesquisar (dentro e fora de mim) o que é isto de ser corpo e não ter corpo. Bang bang.

vínculo#1

Joana

Este é o meu pai.

Esta sou eu e o meu filho.

Olivia

Eva queria conseguir responder-te sem parecer saber mais do que tu em relação às dores da vida ou sem querer parecer entendida em assuntos em que não sou. Até porque és frontal e se calhar eu dizer alguma lamechiçe só porque não me ocorre nada sábio para dizer vais achar que sou arrogante, imprecisa, despreocupada com a  tua dor e, parcialmente, alimentada por ela. E tens razão. Seremos todos assim?
Devia ser eu bastante mais fria que tu....ai espera, acho que sou. Porque tu não és propriamente fria, não congelaste na dor, és só socialmente inconveniente. E eu não. Eu faço tudo bem feitinho. Não é? Little Miss Perfect. Oh how irritating! Mas é verdade. Antes de saber falar bem já sabia colocar os talheres certos na mesa e sabia com que copo se embebedavam os convidados com vinho e em qual se servia água. Sou fútil na dor. Até a dor pode ser fútil. Pode doer-me a alma e eu digo que me dói a cabeça, que estou enjoada, que me custa respirar, que estou assim porque o tempo mudou. Que futilidade. Vês que comecei a falar da tua dor para passar logo para a minha dor Eva? Que merda! Agora, ainda por cima, vou dizer que me sinto mal porque não te dei a atenção devida e novamente caio no mesmo erro. Egoísmo. Fútil e egoísta.
A minha mãe chamou-me agora mesmo para apontar um erro que cometi e fê-lo em frente ao meu pai. Podia tê-lo feito de outra forma. Mas não. Humilhação pública. Excellent strategy and her favorite. Tudo o que disse acima sobre mim podia tê-lo dito sobre a minha mãe. Só agora é que me ocorreu isto. Não estou a dizer que sou assim por causa dela. Sou assim porque não sou capaz de ser diferente dela.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Eva

Não sei muito bem o que é participar num blog. Lançar conteúdos que possam ser úteis a outros. Escrever palavras que ajudem. Acho que a minha contribuição aqui é dizer verdades. Pelo menos foi assim que a M. classificou o meu perfil - honesta. Bruta! Pois, bruta seria mais honesto. É que não gosto de dizer as coisas pela metade, não gosto de ficar com palavras presas na garganta e perder três dias a pensar no que ficou por dizer. Sou a Eva. Sou bruta. Só com palavras. Tenho um aspecto frágil e febril, tenho ar de cantora de música folk. A minha psicóloga diz que dissociei porque não gostava que os homens olhassem para mim na rua, que o meu pai bebesse e que a minha mãe cantarolasse enquanto ele bebia. Não sei se a ordem está certa. Acho que primeiro o meu pai começou a beber, depois a minha mãe começou a cantarolar e, por fim, eu sentia-me incomodada a caminho do secundário com os olhares dos homens.
Não sou gratuitamente bruta. Sou só necessariamente frontal. Digo a verdade. Adoeci há quatro dias porque estou dividida. Estou sempre dividida e nem sempre adoeço. Mas desta vez adoeci. Estou confusa, sinto-me reprimida e infantilizada. Sinto que não fiz nada na vida e que nada farei. Tenho 34 anos. Tenho um namorado que vive longe. Não sei porque estou confusa e por isso nem bruta consigo ser. Agora não me apetece escrever mais.