Soube ontem que sou uma mulher com raiva. Bem, já sabia mas não sabia que os outros sabiam. Quer dizer, tive a confirmação ontem. Ou melhor, tive certeza que os outros sabiam. Uma colega disse-me que eu sou bruta sem que isso viesse a propósito na conversa. Ou seja, ela não me disse "estás a ser bruta", disse-me "és bruta". Habitualmente não teria reagido porque sei que sou bruta, mas ontem aquele "bruta" carregava coisas, tinha conteúdos imastigáveis, representava partes de mim com as quais talvez eu não lide bem. E ela continuou "Tenho medo de ti. É que tu não és doce...sei lá, metes medo!" Doce... Eu sei que sou bruta, mas acho que também sou doce e que tenho momentos em que mostro a minha raiva, como tenho momentos em que mostro a minha doçura. Aparentemente a minha raiva é muita e a minha doçura está em falta. Pensei, senti, perguntei, senti, pensei e juntei peças.
No dia anterior tinha ido fazer uma massagem shiatsu. Achei-me tensa, com o tórax contraído, autómata, fria, congelada e pensei que uma massagem ou duas tratariam do assunto. Não...ou sim, mas primeiro não. Eu explico. Fisicamente relaxei mas mentalmente parecia uma pedra. Senti-me morta mas nos momentos imediatamente antes de atingir o rigor mortis. Antes do corpo ser uma grande e eterna contracção. No final a massagista comentou "A Eva tem muita flexibilidade mas também tem muita raiva. Tem raiva de quê Eva?" Naquele momento juro-vos que a única coisa que me ocorreu dizer foi "De si!", mas não disse. Segurei a minha raiva, percebi que a senhora não tinha nada a ver com a minha raiva mas também senti que a minha raiva estava a ser maltratada, difamada como se falassem de um filho ranhoso e mal educado. Apeteceu-me dizer "Olhe lá, a minha raiva não é práqui chamada!"
Como teria sido diferente se alguém me tivesse dito "Parabéns! A senhora tem raiva, nunca vi tanta raiva junta no mesmo sítio. Que maravilha! Queria tanto ter essa raiva toda mas é só para aqueles seres especiais, os dotados, os hábeis, os gurus." Mas não! Socialmente a raiva não tem esse papel. A raiva é para esconder, bem escondidinha, atrás dos músculos, dentro das articulações, no fundo do coração. Shhhhhhhhhhh não falem nela senão ela engole-vos e Ai!! é peganhenta, é infecciosa, é contagiosa. Eu tenho medo de si porque a senhora tem raiva. Pode comer-me, fritar-me e servir-me ao jantar.
Como teria sido diferente se alguém me tivesse dito "Parabéns! A senhora tem raiva, nunca vi tanta raiva junta no mesmo sítio. Que maravilha! Queria tanto ter essa raiva toda mas é só para aqueles seres especiais, os dotados, os hábeis, os gurus." Mas não! Socialmente a raiva não tem esse papel. A raiva é para esconder, bem escondidinha, atrás dos músculos, dentro das articulações, no fundo do coração. Shhhhhhhhhhh não falem nela senão ela engole-vos e Ai!! é peganhenta, é infecciosa, é contagiosa. Eu tenho medo de si porque a senhora tem raiva. Pode comer-me, fritar-me e servir-me ao jantar.
Lembrei-me também que não posso usar a palavra "odeio" perto do meu namorado. Reparei que a uso várias vezes. Agora sinto-me culpada cada vez que uso a palavra "odeio" e mais, odeio-me por usar a palavra "odeio". Ele acha que atraio bad vibes cada vez que digo "odeio" e eu odeio que ele ache isso porque considero-me uma pessoa pior por odiar. Mas há verdadeiramente coisas e pessoas que, naquele momento em que uso a palavra, odeio. Por exemplo, odeio o meu namorado quando ele me abre os olhos em sinal de reprimenda e diz "Eva não uses essa palavra por favor..." "Qual palavra?" "Essa que acabaste de usar, essa." "Mas qual, diz lá, não estou a ver...??" Mentira, eu sei bem que disse "odeio não sei que mais", mas queria tanto que ele se libertasse e dissesse "Odeio-te por dizeres que odeias!" Que liberdade!!! Será que alguém é verdadeiramente livre se não puder usar todo o vocabulário que está à sua disposição?? As palavras são para serem usadas, bem como as emoções!!! É como se me quisessem arrancar uma perna e, mutilada, fico frenética, apetece-me abrir a janela do carro e gritar em plenos pulmões "ODEIO-VOS E NEM VOS CONHEÇO". Sim, tu aí! A ti também!
Odeio hipocrisia, odeio supersticiosos, odeio praias poluídas, odeio praias com muita gente (odeio mais se levarem os cães com eles), odeio não ter dinheiro na conta, Ah! e há momentos em que odeio gatos. Passo a explicar. Antes de sair da suposta massagem relaxante a senhora perguntou-me "Tem animais? Gatos?" "Não, mas porquê? Devia ter?" "Bem, era uma forma de abrir o coração, cuidar de alguém, acarinhar...é só uma ideia". A minha raiva piorou e nesse momento achei-me a pior criatura do mundo. Odeio gatos (não é uma coisa definitiva e constante mas não é um bicho por quem sinta amor incondicional, nunca foi) e porque é que alguém que, supostamente, quer o meu bem, me quer ver com um gato??
Estou confusa. Serei absurdamente anormal por ter momentos em que sinto raiva? Li um e-mail que dizia que o Khrisnamurti morreu com um cancro no fígado. Maus fígados não era sinónimo de mau feitio para os antigos? E eu? Se este tipo era mal encarado eu não posso ser?
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